Amma(r)ia Castelo de Vide e Marvão

29-03-2021

Porquê a escolha destes dois concelhos para esta nossa visita? Poderia adiantar diversas razões: a paisagem da região, a simpatia das suas gentes, a cultura, a gastronomia, etc, etc. Todas elas são igualmente válidas e motivo mais do que suficiente para viajar até ao alto Alentejo. Todavia, na altura em que publico o presente artigo (Semana Santa), há uma razão especial especial para o fazer: a Páscoa. Efetivamente, se há lugares em que se congregam provas materiais e imateriais da presença dos três povos que personificaram a Quaresma - cristãos, judeus e romanos - um desses lugares é aqui. 

Comecemos por saber como aqui chegar. Tal como fizemos quando visitamos Nisa (publicado em 12/03), o melhor caminho é viajar pela A23 - venhamos de norte ou de sul - até cruzarmos o IP2, seguir nesta em direção de Portalegre, saindo então para a EN 246 rumo a Castelo de Vide.

À chegada o primeiro deslumbramento é o verde da paisagem, o que levou D. Pedro V a apelidá-la de Sintra do Alentejo. Efetivamente estamos em pleno parque natural da serra de São Mamede onde, para além de uma grande diversidade de fauna e flora, existe a única mancha de carvalhais e castinçais a sul do Tejo. A vila de Castelo de Vide fica logo na retina com o seu conjunto de alvas casas  trepando encosta acima até às  muralhas do castelo medieval. 

O casario branco de Castelo de Vide

A nossa visita inicia-se no centro da vila, unto à imponente igreja matriz de Santa Maria da Devesa (séc. XVIII). Durante a Semana Santa, neste templo têm lugar dois acontecimentos que - acredite ou não - agregam o ritual cristão e o hebraico. Assim, na manhã de sábado da Quaresma, ocorre a bênção dos cordeiros no adro da igreja. O cordeiro é considerado animal sagrado em ambos os credos - agnus Dei  (cordeiro de Deus) para os cristãos e símbolo do sacrifício na fuga dos judeus do Egipto. O outro evento ocorre na noite desse dia. Assim, durante e após a celebração da missa de Aleluia, os crentes fazem soar centenas de chocalhos, simbolizando a ressurreição de Cristo para os cristãos; travessia do mar Vermelho e o fim da escravidão para os hebreus. Sem dúvida um singular exemplo  de identidade e respeito entre credos diferentes.  

A bênção dos cordeiros

Vamos então percorrer a pé as ruas e ruelas floridas do casco histórico, começando por seguir em direcção à icónica Fonte da Vila.

Castelo de Vide, Fonte da Vila e ruas floridas

Ladeira acima, bem no meio da zona da judiaria, seguimos ao encontro da sinagoga medieval. Construída no séc. XIV, o imóvel teve várias utilizações, inclusivé como habitação. Em 1972, no decurso de obras de restauro das paredes, foi descoberta a sua função original ao ser encontrado o Hekhál (tabernáculo), local onde são guardadas as escrituras sagradas  (Torá). Funcionando atualmente como museu (ver aqui), nos seus dois pisos poderemos acompanhar a diáspora hebraica, após o édito de expulsão de D. Manuel I. De realçar a sala com os chocalhos - cujo significado acima referi - a das chaves das casas que os judeus tiveram que abandonar há mais de 500 anos, bem como a placa com o nome das famílias judias desta vila, entre os quais consta o de Garcia da Orta.

Sinagoga de Castelo de Vide

Prosseguimos em direção ao castelo, não podendo deixar de apreciar pelo caminho a quantidade e variedade de portas medievais com os seus característicos arcos ogivais. Do cimo das suas muralhas podemos disfrutar, para além da beleza do casario branco que se estende a seus pés, a encantador ermida de Nossa Senhora da Penha localizada na encosta sobranceira à vila.

Castelo de Vide, ruas e muralhas do castelo

Partamos agora ao encontro do terceiro povo referido no início desta crónica: os romanos. Para isso, continuando pela EN 246, saímos em direção a S. Salvador da Aramenha, mais exatamente, a caminho das ruinas da cidade romana de Ammaia. No centro de interpretação que nos recebe à entrada estão expostos diversos artefactos encontrados até agora nas escavações arqueológicas. Porém, o que nos deixa atónitos, é a dimensão da cidade (25 ha), representada em maquete. Com efeito, só temos a verdadeira noção da sua grandiosidade, quando  percorremos a área exterior na totalidade e nos apercebemos da sua dimensão, a qual só uma pequena parte foi já explorada (o Forum, as Portas do Sol, etc.).

Maquete e  escavações da cidade romana de Ammaia, fundada no séc. I a II d.C.

Prosseguimos agora para a povoação de Portagem. Tal como o seu nome dá a entender, foi aqui que os judeus fugidos de Espanha, depois de atravessarem a ponte sobre o rio Sever,  pagavam o tributo (portagem) para passar a viver em Portugal.  

Ponte sobre o rio Sever e torre de controlo e pagamento da portagem

Em seguida vamos subir, literalmente, aos céus. Localizada no cimo de uma escarpa, a 860 m de altitude, a vila de Marvão é, apropriadamente, chamada de ninho de águia. Esta encantadora vila de casas caiadas de branco merece bem uma visita demorada. Para além disso, do cimo das muralhas do seu castelo - construídas sobre uma estonteante escarpa quase vertical - a paisagem deixa-nos literalmente sem fôlego. Ter o privilégio de assistir dali ao pôr do sol é algo mágico e indescritível...

Vila e castelo de Marvão

Independentemente da época do ano em que visitamos estes lugares, é quase impossível não ficar a amar tamanha beleza. Deixe-se também apaixonar e venha até cá. Como sempre, conto consigo!


 

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