Bayan (Baião) e o caso dos frades com sede que acabaram vendendo vinho

17-02-2021

A meia distância entre a cidade do Porto e o Alto Douro Vinhateiro, o rio Douro atravessa uma zona conhecida como Douro Verde. Trata-se  de uma região com uma extensão de 50 kms, ao longo das margens daquele rio, abrangendo seis concelhos (Amarante, Baião, Cinfães, Marco de Canaveses, Penafiel e Resende).  O nome Douro Verde, em contraste ao Douro Vinhateiro,  advém-lhe de estar ligada à região demarcada dos vinhos verdes e por ter uma paisagem com vegetação densa e um clima mais húmido. É por causa destas características que hoje iremos até um desses concelhos: Baião, antigamente chamado como Bayan. Quer acompanhar-me ?


De entre o belo e diversificado património que podemos apreciar no concelho de Baião, desta vez vamos visitar um em especial: o mosteiro de Santo André de Ancede. Para lá chegar, poderemos viajar de automóvel ou de comboio (linha do Douro). Neste último caso - tendo o privilégio de disfrutar da extraordinária paisagem do vale do rio Douro - apear-nos-emos na estação de Mosteirô, ficando o n/ destino final a cerca de 3 Kms de distância.

Trecho da paisagem do rio Douro em Baião

Falemos agora do mosteiro de Stº André cuja data de fundação é anterior à da nossa nacionalidade. Curiosamente, segunda a lenda, no início este não se localizaria em Ancede mas sim na localidade de Ermelo. No entanto, os monges - pertencentes à congregação dos cónegos regrantes de Santo Agostinho - terão pedido ao nosso primeiro rei para se mudarem argumentando que o local era muito seco, com pouca água, o que terá levado D. Afonso Henriques a dizer: Pois se os cónegos hão sede,...mudem-se. Daqui terá derivado o atual nome de mosteiro de Santo André de Ancede.

Construído originalmente em estilo românico, de que só resta a rosácea na parede fundeira da igreja, o restante conjunto monacal sofreu profundas alterações a partir do século XVI com a chegada dos frades dominicanos, em 1559.  

Igreja do Mosteiro de Santo André de Ancede

A carta de couto, outorgada em 1141 por D. Afonso Henriques, concedeu-lhes uma significativa área de domínio. Ao longo dos séculos, os frades foram alargando a sua influência e vasto património, tirando partido da exploração dos recursos locais.  De entre eles destaca-se a criação de um importante entreposto comercial ligado à produção e exportação de vinho, nomeadamente o vinho verde da casta Avesso, de que falaremos mais à frente. A dimensão desta atividade foi tal que o vinho produzido no Mosteiro era vendido em plena idade média na Flandres - o porto comercial europeu mais importante na época, possuindo o mosteiro uma nau própria para o transporte.

Adega do mosteiro. De notar que neste tonel, com mais de de 200 anos, as aduelas não estão seguras por meio dos comuns arcos em ferro mas sim de madeira (lódano). 

Uma outra curiosidade  é o facto do mosteiro possuir, de acordo com documentos do final do século XIV, "bens de raiz na vila de Gaia", entre os quais albergarias e  armazéns. A posse destas propriedades permitiu-lhes, engenhosamente, obter da cidade do Porto o título de vizinho, ou seja, conferia-lhes o pagamento de menores impostos e a venda direta dos produtos com iguais privilégios e franquias aos dos habitantes do Porto.

Para além dos edifícios eclesiásticos, no mosteiro podemos ainda visitar  a quinta, os celeiros bem como a adega, onde funciona o Centro interpretativo da vinha e do vinho.

Imperdível, também, a visita à capela do Senhor do Bom Despacho, implantada no adro da igreja do mosteiro. Construído em 1731, este pequeno templo tem forma octogonal. No seu interior possui um invulgar conjunto barroco, formado por seis retábulos em forma de palcos, em cuja boca de cena estão representadas cenas da vida da Virgem Maria e da infância de Jesus Cristo.

Após vários séculos de autonomia, em 1559, por decisão do Papa Pio IV e a pedido da Regente D. Catarina da Áustria, é "unido in perpetuum" ao Mosteiro de S. Domingos de Lisboa, de onde eram originários os confessores da Rainha. A partir  dessa data passam a pertencer-lhes todos os direitos, rendas e igrejas anexas do Mosteiro de Ancede.


A terminar não posso deixar de mencionar o imortal escritor Eça de Queirós e o seu extraordinário livro "A cidade e as serras". Neste, cuja acção decorre em Tormes - contigua à localidade ora visitada - o autor referindo-se ao vinho Avesso, escreveu:

Mas nada o entusiasmava como um vinho de Tormes, caindo do alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.

A personagem Jacinto, do livro A cidade e as serras, numa (má) figuração do blogger

Share
© 2020 Blog do Manuel Soares. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora