Caminhando acima do voo das gaivotas

Desta vez rumamos ao reino dos Algarves, mais exactamente à vila de Odeceixe, pertencente ao concelho de Aljezur. Estamos em plena costa Alentejana e a minha proposta será conhecermos o chamado Trilho dos Pescadores.
Considerado um dos melhores trilhos costeiros do mundo, o percurso completo, com os seus 226,5 Kms de extensão, tem o seu início na praia de S. Torpes (Sines), atravessa o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e termina na praia da Luz (Lagos).
Porém, acalmem-se aqueles/as de espírito mais inquieto, só iremos percorrer uma minúscula parte desse trilho. Será um percurso circular, com início e fim em Odeceixe, numa extensão de cerca de 14 Kms.(PR10 AZJ - De Odeceixe ao mar. (ver aqui).
Assim, a partir da E.N. 120, atravessamos a ponte sobre o rio Seixe - o qual serve de fronteira entre o Alentejo e o Algarve, não sem antes passarmos por Baiona (Galiza???), entrando na simpática e bonita Odeceixe.
Depois de atravessarmos a localidade seguimos pela estrada que nos leva à praia de Odeceixe.
São 3 Kms de puro deleite, sempre com o rio Seixe à ilharga, numa paisagem rural e bucólica tendo as arribas "alentejanas" como pano de fundo.
Após palmilharmos em piso absolutamente plano, iniciamos a ascensão que, gradualmente, nos levará a ficar a par da altitude das arribas do lado alentejano.
Eis-nos chegados à praia de Odeceixe, eleita uma das 7 maravilhas de Portugal.
É a partir daqui que, o trilho "puro e duro" - mas assombrosamente belo - tem o seu início.
Agora só cá estamos nós, o vento e o mar. Á medida que subimos a arriba, abre-se o horizonte e eleva-se a alma. Agora o que domina é o azul infinito do horizonte e o som cavo das ondas que nos fazem companhia.
O ar fresco, carregado de maresia, invade-nos as narinas.
Talvez a imensidão do mar chame primeiro a nossa atenção mas, sem dúvida, são as arribas que nos arrebatam o olhar.
Sim, a altivas falésias impõem-se dominadoras. Escarpadas, de tons ocre, castanho e mesmo negro, parecem majestosas catedrais elevando-se mar acima.
Impossível não estacar o passo e quedar-mo-nos a admirá-las.
São testemunhas mudas das forças telúricas que as criaram. Imponentes e formidáveis fazem com que nos sintamos minúsculos ao seu lado...
Enquanto caminhamos observamos as gaivotas que, agora, voam mais baixo que os nossos passos.
Por vezes cruzamo-nos com outros caminhantes que, tal como nós, amam estes espaços da natureza (quase) selvagem.
Mais raramente, podemos deparar-nos com outros seres muito especiais. Solitários e destemidos - autênticos descendentes de Poseidon - eles são os apanhadores de perceves.
Negro fato de borracha vestido, saco de rede à cintura, na mão seguram a arrilhada (ferramenta de trabalho). Descem por um trilho que não tem mais que a largura dos próprios pés. Uma descida a pique de mais de 40 m até às profundezas daquele inferno líquido. É medonho e causa vertigens.
Aos poucos, o homem que cá em cima se cruzou connosco, já não é mais que uma minúscula formiga lá em baixo no meio da penedia.
Umas vezes aparece agarrado á negra rocha, outras submerso num lençol de espuma branca das ondas que teimam em arrastá-lo para longe. Uma luta desigual entre o pequeno David pescador e o gigante Golias líquido.
Absolutamente épico e assustador...
Após percorremos 3 kms num cenário de cortar a respiração, é com relutância que abandonamos a companhia da orla marítima. O caminho de regresso segue agora para o interior, em direcção à povoação com o pitoresco nome de Maria Vinagre. Aliás, em questão de toponímia castiça, esta região é surpreendente.
A terminar deixo aqui uma sugestão e uma recomendação.
Em relação à primeira, sugiro que não deixem de provar o afamado pão da vizinha freguesia de Rogil, bem como degustar o prato típico de polvo com batata doce, todos eles produtos endógenos da região.
Porque as arribas são sistemas em permanente processo de erosão e o seu pisoteio representa necessariamente perigo de queda, no sentido de prevenir acidentes graves deverão ser observadas certas recomendações. (ver aqui).
Boa caminhada !

