Fraternidade luso-gaulesa

24-02-2021

Tomando por bússola o pensamento de Alphonse de Lamartine:  " O egoísmo e o ódio têm uma só pátria. A fraternidade não a tem.", desta vez iremos "viajar" no tempo (dez séculos) e no espaço (dois países). Aceita o meu convite?


O nosso caminho começa na estação ferroviária de São Bento, no Porto. Esta, com os seus belos paineis de azulejos é um dos locais a não perder na cidade invicta. Daqui, viajaremos através da linha do Douro até à localidade do nosso destino: Cête.                                  

Cête, não!

Como acima referi, o comboio que nos transporta - qual imaginária máquina do tempo - irá em apenas meia hora fazer-nos retroceder até ao séc. X,  levando-nos até à localidade que, naquela época, tinha um nome gaulês: Cêtte. Mais à frente explicarei o porquê.

A caminhada, num total 8 Kms, começa à saida da estação de Cete tomando o lado direito em direcção à rotunda de S. Pedro de Cete. A partir desta, seguiremos então pela EN 106-3 rumo à Ermida de Nossa Senhora do Vale, que faz parte da Rota do românico, sendo este o nosso primeiro ponto de paragem.

Esta pequena capela do séc. XV, construída em estilo românico, tem a particularidade de possuir um púlpito no exterior do templo , sob um alpendre que lhe amplia a área, face ao grande número de crentes em tempo de romaria. A sua localização está ligada a uma maior proximidade e intimidade da religiosidade popular que evoca a protecção divina para si e para as práticas agrícolas deste vale do rio Sousa , cujo leito lhe fica ali próximo. 

Continuando na mesma E.N. 106-3, caminhemos mais cerca de 750 m até cruzarmos a Rua de S. Sebastião, virando nesta à esquerda, junto à placa indicando a direcção da sede da banda de música local. A partir deste ponto prosseguimos pelas ruas de S. Sebastião,  do Barreiro e de Pde. Manuel Dias Costa, onde irá surgir a primeira placa assinalando o mosteiro de Cete. Seremos então surpreendidos com uma invulgar escultura metálica representando uma figura crucificada invertida. Bizarria do autor da obra, perguntarão? Tente  o(a) leitor(a) descobrir o porquê...

  

Daqui para a frente, a paisagem circundante - até aí um misto de urbano e rural - vai alterar-se. 

À nossa frente, um conjunto de montes circundantes parece querer esconder o pequeno vale verdejante à nossa frente. Nesta paisagem bucólica, a visão de uma fileira de amieiros e freixos faz prever a passagem de um ribeiro, uma das condições sine qua none para a implantação de um mosteiro. Ei-lo, por entre as àrvores, à nossa direita. Longe dos olhares do mundo e num ambiente propício à oração e contemplação, foi aqui que, no ano 882, os monges franceses originários de Cêtte fundaram este mosteiro beneditino, dando-lhe o nome da sua terra. 

Porém, no ano 963, estando então a Península Ibérica praticamente toda sob o domínio mouro, o templo viria a ser destruído pelas tropas árabes, comandadas pelo - tão célebre quanto terrível - Almançor.    

Seguir-se-ia a chamada guerra da reconquista cristã na qual os povos ibéricos contaram com a ajuda de muitos cavaleiros cruzados europeus. Foi o caso, por exemplo, do conde D. Henrique de Borgonha (França) que veio auxiliar-nos dessa luta. Um dos seus companheiros de armas foi D. Gonçalo Ouveques (1067-1113), também ele de ascendência francesa, o qual entrou em vários combates contra os mouros ao lado do famoso Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador . 

Curiosamente, viria a ser este gaulês D. Gonçalo Ouveques a promover a reconstrução do mosteiro, assim permitindo uma nova etapa da vida monacal. Aliás, em sua memória, no interior da igreja encontra-se a sua arca tumular, ricamente decorada com invulgares paineis com motivos vegetalistas, encimado por um painel de belos azulejos de arte mudéjar .    

Arca tumular de D. Gonçalo Ouveques

O conjunto monacal visitável é formado pela igreja, possuidora de uma acústica excepcional , construída inicialmente em estilo românico e posteriormente acrescida de elementos manuelinos, bem como um bem conservado claustro. Em contraste, não posso deixar de aqui registar o estado de completa ruina e desleixo em que se encontram as restantes instalações do mosteiro. Apesar de se tratar de propriedade privada, não deixa de ser verdadeiramente lamentável!

Continuando a nossa caminhada, agora ao longo da Rua dos Carros, decorridos 750 m vamos deter-nos junto de um modesto solar rural, à face da rua. Porquê? 

Trata-se do imóvel onde viveram os avós paternos do conhecido jornalista da RTP e escritor José Rodrigues dos Santos. E o que é que isso tem a ver com o tema do nosso passeio? Pois bem, provavelmente já ouviram falar do livro "A filha do capitão", escrito por aquele jornalista. Ora, na dedicatória do citado romance, o autor menciona o nome do seu avô paterno, o capitão José Rodrigues dos Santos, o qual terá participado na I Grande Guerra ao lado dos aliados. Ele, tal como muitos outros o fizeram - quais cavaleiros cruzados da era moderna - representam a ajuda fraterna e solidária à França e outros países ocupados. Em suma, uma forma de retribuir na luta pela liberdade contra a opressão.

Casa da família de José Rodrigues dos Santos (créditos da foto: Google maps)

Seguindo depois pela avenida Vitorino Leão Ramos e rua de Belo Horizonte iremos desembocar na nossa já conhecida EN 106-3, ao lado do quartel dos bombeiros voluntários de Cete, ou seja, próximo da estação ferroviária onde iniciamos o trajecto.

A partir daqui deixo a sugestão de irmos degustar os petiscos regionais, num moinho situado à margem do rio Sousa. Aí, para além de disfrutarmos da soberba paisagem ribeirinha verdejante, poderemos apreciar os sabores tradicionais ao ar livre, sob uma extensa ramada de vinho verde cujos cachos fazem lembrar lustres suspensos sobre as nossas cabeças. Bom proveito!  


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