Viagem à antiga Anégia, com uma espreitadela às maravilhas do inferno

Anégia - palavra de origem celta que significa rio - correspondia, nos sec. IX-XI, ao território situado onde é hoje o vale do Sousa. A pouco mais de 30 minutos de viagem da cidade do Porto, vamos encontrar uma região que tem tanto de beleza selvagem quanto de desconhecida. Aceita a minha proposta de irmos até lá?
Para lá chegar, viajaremos pela A4 e depois A41 saindo para Aguiar de Sousa. Após a portagem, na rotunda viramos à direita seguindo pela EN.319-2. Tendo o rio Sousa por companhia, seguimos até encontrarmos a placa com a indicação do agora rebatizado como Parque das serras do Porto/Sra. do Salto o qual substitui (mal) a bem mais sugestiva designação anterior. Sejam pois bem vindos às Maravilhas do Inferno !

Após deixarmos a viatura no parque lá existente e à medida que vamos descendo a calçada para junto do rio, temos a visão de uma paisagem simultaneamente bela e esmagadora. Este local, popularmente conhecido como boca do inferno, é formado por um profundo desfiladeiro de paredes verticais de rocha com características geológicas particulares. No fundo deste canhão corre "esganado" o rio Sousa. Se a isto juntarmos o fragor das suas águas revoltas de encontro às rochas do seu leito, temos a sensação de estar perante um quadro horrivelmente belo. Nada receiem que o local é perfeitamente seguro, permitindo captar imagens únicas de rara beleza.
A força e esplendor da natureza
Curiosamente ou não, é também um lugar impregnado de misticismo ou não fosse a lenda local referir que um cavaleiro ter-se-á livrado da morte ao invocar a proteção da Senhora após um salto inadvertido no abismo quando andava à caça. Em sinal de agradecimento pelo milagre, o cavaleiro terá mandado construir no local a pequena capela da Nossa Senhora do Salto.
O local do milagre e respectiva capela
Para recuperarmos as forças após tantas sensações vivenciadas, nada melhor que visitar o café típico providencialmente ali instalado. Local de paragem obrigatória dos praticantes de BTT e enduro (motocross), aqui poderá provar os petiscos regionais.
Refeitos de corpo e alma, vamos continuar a n/ visita percorrendo agora o trilho pedestre (linear, 3 Kms.) dos moinhos e Torre do Castelo (procurar a respectiva placa mais à frente na nossa já conhecida EN 319-2)
Caminhando entre pinheiros, eucaliptos e mimosas, descemos encosta abaixo em direção ao rio Sousa cujo cantar das águas é cada vez mais audível. Por entre a vegetação do caminho eis que surge à nossa frente o primeiro dos vários moinhos que iremos encontrar. Embora alguns não passem de ruinas outros há que estão bem conservados ou mesmo a laborar. Numa das primeiras vezes que por aqui passei tive a sorte de encontrar o moleiro que, gentilmente, me franqueou a entrada do moinho para assistir ao trabalho da mó, movida pela água, transformando o grão em alva farinha.
Moinhos do rio Sousa
Na parte final o trilho afasta-se do leito do rio, alargando-se o nosso horizonte visual. Aqui, se a sorte nos sorrir, talvez possamos apreciar o elegante voo planado do falcão-peregrino, nobre habitante das escarpas da Senhora do Salto.
O trilho termina ao desembocar na EN.319-2. A partir deste ponto temos duas opções: regressarmos ao ponto inicial caminhando pela berma da estrada ou, se as pernas ainda o permitirem, percorrer mais cerca de 400 m e subirmos a colina ao nosso lado até à torre do castelo de Aguiar de Sousa, que faz parte da rota do românico.
Do cimo das muralhas deste antiquíssimo bastião de defesa da Anégia, no tempo da reconquista cristã, faremos as despedidas ao nosso anfitrião rio Sousa

